Os Jogos Galaicos

O topónimo Cornide, que dá nome a umha dúzia de povoaçons da Galiza e Portugal, também se encontra na freguesia de Numide nomeando um Monte Cornide, situado mui significativamente perto do Castro de Gorgulhos e das Pedrinhas. Partindo do dicionário de Carré Alvarellos, Corominas e outros etimologistas baralharam a possibilidade de explicar Cornide por um *cornuetum, conjunto de cornejos (cereijeiras bravas). Cabeza Quiles, por sua parte, aposta por uma possível base céltica ou pré-céltica *corn, “pedra”, que estaria na origem de muitos topónimos referidos a zonas rochosas.

Desbotando completamente a hipótese das cereijeiras bravas, Millán González-Pardo[1] propujo umha atrativa teoria arqueológica partindo do étimo céltico *korneti, que expom assim: o primeiro elemento, *kor-, explicaaria-se pola palabra goidela cor, “círculo”, enquanto –Neti viria a ser o genitivo do teónimo Netos, divinidade celta do combate presente em várias inscriçons da faixa atlântica peninsular, como nas de Padrom ou Condeixa-a-Velha. Desta deidade escreveu Macróvio no século V: “Quem vai duvidar de que Marte é também Sol? Os accitanos mesmo, um povo da Hispânia, rendem grandísimo culto a umha efígie de Marte, ornado de raios, dando-lhe o nome de Neto[2]”.

Entom, se temos que Cornide é um “círculo de Neto”, que poderia ser tal cousa? Millán oferece três propostas: um recinto sacrifical; um círculo lítico; ou mesmo um campo de treinamento bélico “de la mocedad de los castros, puestos bajo el patrocinio del dios del combate”. Estas práticas já foram descritas por Strabom na sua Geografia: “praticam pelejas ginásticas, hoplíticas e hípicas para o pugilato, a carreira, o lançamento de dardos e o combate[3]”. Surpreendentemente, o padre Álvarez Sotelo descreve na sua Historia general del Reino de Galicia uns jogos praticamente idênticos sete séculos depois, embora já completamente enquadrados na rivalidade paroquial (explicada magistralmente polo antropólogo Carmelo Lisón Tolosana)[4]: “Desafiaban otro día los de un lugar a los de otro y, a veces, los de este territorio a los de aquel y entonces manifestaban todas sus fuerzas y destreza, por quedar superiores unos a otros. Los ensayos eran estos: hacían los juegos gemnicos, es a saber, luchaban unos con otros, desnudos y ungidos (invención grande que ostenta fuerza y destreza), acacharreábanse éste con aquél; corrían parejos, a pie y a caballo, jugaban las lanzas y los dardos, tiraban con las hondas a una vuelta, con grande violencia, y últimamente, formados batallones, se acometían, los unos a los otros, como si las hubieran con el enemigo[5]”.

Mapa com o Monte das Pelejas, em Rodis (Cerzeda), tomado de www.segatur.com
Mapa com o Monte das Pelejas, em Rodis (Cerzeda), tomado de http://www.segatur.com

É quiçá neste contexto de conflitividade interparoquial que se explique o Monte das Pelejas de Rodis, podendo vir de umha forma castelhanizada de pelelha (pellicula) ou de peleja no sentido de brida. Para Moralejo Lasso o uso do primeiro apelativo como topónimo teria conotaçom negativa, enquanto do segundo haveria outras mostras nos topónimos samoranos. Peleas de Arriba, Peleas de Abajo ou Peleagonzalo[6]. Caso deste monte de Rodis ter sido comunal, as pelejas nele nom teriam nada de excecional, pois há umha ingente história de conflitos em todo o país polo aproveitamento dos comunais, que derom pé a costumes como o sequestro do gado de outra paróquia que pacia no monte próprio, impondo umha multa de vinho para recuperá-lo, cousa que escandalizava a Pedro González de Ulloa[7]. O historiador Pegerto Saavedra deu conta de algumha destas pelejas antológicas dos séculos XVIII e XIX que, ao mais puro estilo de Terence Hill e Bud Spencer, implicavam “elaborados rituais de defesa do território”, como quando em 1779 os de Piornedo (Junqueira de Ambia) quigérom sementar centeio nos montes colindantes de Sabói e Fontefria, os quais aparecerom durante a roça agabelados e tocando gaita e tamboril para atermorizar os do Piornedo e defenderem o seu monte[8].

Lugar de Peleas de Abajo em Samora
Lugar de Peleas de Abajo em Samora

[1] Isidoro Millán González-Pardo, Toponimia del concejo de Pontedeume y cartas reales de su puebla y alfoz, Corunha, Diputación Provincial, 1987, págs. 166-174.

[2] Macróbio, Saturn, I. 19, 5.

[3] Strabom, Geografia, III, 3, 7.

[4] Sobre as pelejas entre moços de distintas paróquias C. Lisón Tolosana, Antropología cultural de Galicia, Madrid, Akal, 1979, págs. 62-70.

[5] Álvarez Sotelo (1648-1712), Historia general del Reino de Galicia, cit. em: X. Filgueira Valverde, Adral, Vigo, Galaxia, 2015, pág. 186.

[6] A. Moralejo Lasso, Toponimia gallega y leonesa, Santiago de Compostela, Pico Sacro, 1977, pág. 120.

[7] “… uno de los asuntos en los que suelen ocupar los días festivos estas gentes del bronce, es en multar a su arbitrio los ganados mayores y menores del contorno que pasan fuera de los límites respectivos. Esto se hace por entre semana; deposítase lo que se exige, y en llegando el día festivo el juez pedáneo junta al concejo, vanse a la taberna, y allí […] llegan los dueños del ganado a desempeñar las prendas que se dieron antes para libertar las reses encorraladas; encuentran a los congregantes como convidados a las bodas de Peritoo, empiezan a trabarse la lengua y luego las manos”, como “corsarios terrestres” que convertem as multas “en embriaguez y borrachera, matándose por esta función castrones, carneros y vacas”. P. González de Ulloa, Descripción de los estados de la casa de Monterrey en Galicia, Madrid, CSIC, 1950, págs. 29-30.

[8] P. Saavedra, La vida cotidiana en la Galicia del Antiguo Regímen, Barcelona, Crítica, 1994, págs. 89-94.

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