Grudar, ou a recordaçom da liberdade

Perante as greves operárias de junho de 1936, Simone Weil reflectia: “Ninguém sabe como irám as cousas. Som de temer várias catástrofes […]. Mas nengum temor apaga a alegria de ver erguer a cabeça àqueles que sempre, por definiçom, a baixam […] Suceda o que suceder, sempre terám tido isso. Afinal, pola primeira vez e para sempre, flotarám ao redor dessas pesadas máquinas outras recordaçons que nom sejam o silêncio, a coacçom e a submissom”. Algo semelhante, em certa maneira, foi o que intentou Eduardo Pondal no século anterior, encetando un singularíssimo projeto poético concebido como ferramenta de dignificaçom nacional. Nessa tarefa, o “intenso esforzo de ‘designación’ da terra”[1], como lhe chamou Manuel Ferreiro, ocupou um posto central: a omnipresente toponímia labrega, a mais humilde paisagem quotidiana do povo trabalhador, foi vigorosamente resignificada por Pondal, de jeito que “pola primeira vez e para sempre”, ressoaram nos lugares, eidos e agros da escravitude diária, “outras recordaçons que nom sejam o silêncio, a coacçom e a submissom”.

Educado sentimentalmente no celtismo decimonónico, Pondal exerceu de mitólogo para criar as legendas proto-históricas que a Galiza nom tinha, e para isso despregou umha estratégia recorrente: a partir dos topónimos aldeaos, o poeta imaginava heróis celtas que jazeriam ali dando nome ao lugar, programando assim todo o território como um recordatório perenne de um in illo tempore de independência e resistência, incrustado na geografia. O de Ponte Cesso, ao igual que Murguia, acedera ao Labor Gabála Érenn e à poesia ossiânica através das traduçons francesas[2]. Acha Ferreiro [3] que, nas leituras ossiânicas de Pondal, a descoberta da existência de um herói chamado Grudar –o amante de Brassolis- deveu-lhe ressoar com o lugar e monte de Gundar (na freguesia lagense de Nande), precipitando a sua transformaçon no “nobre bardo Gundar”, o que cantava: “A luz virá para a caduca Iberia / dos fillos de Breogán[4]”. E é que Gundar talvez seja o mais emblemático dos muitos personagens lendários criados por Pondal a partir de um numeroso grupo de topónimos rematados em –ar.

Pois bem, em Ordes há umha Pedra Gondar –para além de outros topónimos em –ar, que já se verám-, que, vista sobre o mapa, parece um importante marco entre as paróquias de Barbeiros, Pereira e Marçoa. Nom se equivocava de todo Pondal: os topónimos em –ar agocham antropónimos, mas nom celtas, senom germânicos. Pedra Gondar, deve proceder de umha hipotética *(petra) Gundiarii, isto é, de um homem altomedieval chamado Gundiarius, nome composto por dous elementos góticos: gunthi, ‘combate’, mais harjiis, ‘exército’, algo assim como “Exército para o combate”, pois, na linha épica dos nomes germânicos. Contudo, Fernandez Almeida, à vista das evidências documentais, indica que em algum dos atuais Gondar (na toponímia maior há seis na Galiza e outros tantos em Portugal, todos dentro das fronteiras do Reino Suevo) nom aparecia o elemento gunthi senom gand- ‘cajado, bastom, cetro’, resultando um nome pessoal de significado parecido a “Bastom de mando do exército”.

Mágoa que os estudos da nossa toponímia germânica de um J. M. Piel nom existissem na altura do Rexurdimento, pois Pondal acharia neles um inesgotável recurso simbólico, embora em chave mais sueva que celta. Faraldo botara mao dele na proclama da Revoluçom Galega de 1846, ao profetizar –como o bardo Gundar-, que “chegará a conquistar Galiza a influência de que é merecedora, colocando-se no alto lugar a que está chamado o antigo reino dos Suevos[5]”, mas ainda nom  havia os meios necessários para umha reapropriaçom poética e política do passado suevo.

[1] M. Ferreiro, Esta é a terra dos eidos amigos. Escolma xeográfica da poesía pondaliana, Corunha, Deputación Provincial da Coruña, 2017, p. 16.

[2] Leabar Gabala. Livre des Invasions traduit de l’irlandais our la première fois par Henri Lizeray, William O’Dowyer, Paris, Maisonneure frères et Ch. Leclerc, 1884; James Macpherson, Ossian, barde du IIIè siècle. Poemas recueillis par James Mac-Pherson. Traduction revue sur la dermière anglaise et précédée de recherches critiques sur Ossian et les calédoniens par P. Christian, Paris, Librairie de L. Hechette et Cie, 1867.

[3] M. Ferreiro, op. cit., p. 102, n. 22.

[4] E ainda, explicitando claramente a sua estratégia político-toponímica: “D’Arou nobre fillo, / ouh bardo Gundar, / dos fillos dos celtas / cantor sin igual, /ouh Gundar famoso, /decirnos pod’rás / en donde os valentes / sepultos están, /Ousinde garrido / e o nobre Porcar, / dos fillos dos celtas /guerreiros sin par?”.

[5] Antolín Faraldo, proclama da Junta Provisional do Governo da Galiza, 1846.

Mapa Pedra Jondar

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s