As aldeias dos leitores (VI): O Casal

Mapa do Casal de Ordes
Mapa do Casal de Ordes

Fernando Carril, quem já tem visto londras na presa da estaçom da Pontraga e no regato de Leobalde quando vai pescar, e que nos descobreu o formoso microtopónimo da Fonte do Gato, no Valado de Ordes, pregunta polo significado do topónimo e apelido de Casal, igual que Daniel Gómez Mariño. Na comarca de Ordes som muitas a paróquias que tenhem lugares chamados o Casal: na do próprio Ordes, em Aiaço, em Andóio, em Vila Maior, na Vilouchada e em Vitre. Há também um Casaldalbre em Queijas e um Casal do Mato em Restande. O seu significado explicava-o mui bem Antonio López Ferreiro, em relaçom com os outros tipos de assentamento típicos da Idade Média galega:

“las tierras de los Nobles eran privilegiadas y […] Cada una de estas tierras se dividía á veces en dos partes: una que se llamaba dominicum, terra indominicata, en gallego dónego, dónega, palatium ó pazo, torre, y que se reservaba el Señor para habitarla y cultivarla á su voluntad; u otra que cultivaba por medio de colonos, ya siervos, ya libertos, ya libres. Las casas ó chozas que habitaban éstos, con el terreno adjunto, se llamaban mansos en algunos países, en Galicia casales; y todos, con el domínico, formaban una sola heredad, conocida con el nombre genérico de villa[1].

Etimologicamente “casal” vem do latim casalis, derivado à sua vez do latim vulgar casa, que originariamente significava ‘choça ou cabana rústica’. É bem curioso que nesta luita de classes filológica ganharamos as de baixo, posto que a humilde casa rematou impondo-se à forma clássica domus. Um casal, por outra parte, (e dentro disso que Lisón Tolosana chamava a “ideologia da casa” típica da Galiza) é também um matrimónio. Todos estes nomes citados por López Ferreiro das partes em que se dividiam as propriedades senhoriais da Idade Média, para além dos citados casais, deixárom também abundantes restos toponímicos em forma de lugares chamados a Vila, o Paço, a Torre ou Dónega (desapareceu ou mudou de nome umha Quintanam Donega citada num documento do ano 1032 na freguesia de Cerzeda[2]).

Os lugares chamados hoje o Casal som, pois, sobrevivências toponímicas das casas e terras que cultivavam os campesinhos das vilas medievais, em oposiçom às residênciais e terras diretamente administradas dos senhores. Muitas aldeias que hoje nom se chamam “casal” foram antes “casal de”, conservando só o nome próprio; assim por exemplo, no documento dum pleito de 1419 o deám de Santiago e de Segóvia ditava sentença sobre umhas propriedades em Cerveza dizendo que “reservo su derecho al dicho Arias Pardo, se alguno ha, a los casares de Antemir et de Françelos”[3], lugares que hoje se chamam simplesmente Antemil e Francelos, nom “Casal de Antemil” nem “Casal de Francelos”. O Casaldalbre de Queijas deve ser um Casal-d’albre ou Casal-da-Árvore, que é bonito imaginar referido a umha árvore de concelho. Esta forma “albre” –contraçom de “álbore” desde o arbore latino-, mui do gosto dos escritores da geraçom Nós, nom deixou muito rasto na toponímia galega, para além de um microtopónimo Albres recolhido por Manuel Lorenzo Baleirón nas terras de Dodro e um os Albres mencionado no Proxecto Toponimia de Galicia em Coristanco[4]. Quanto ao Casal do Mato de Restande, nom se pode deixar de apontar a fortuna que esta palabra galega, “mato”, tivo na toponímia (e nos apelidos), pois da mao dos colonialistas portugueses acabou denominando a caraterística geográfica de monte baixo e silveirento com que se encontraram tanto em África (“um homem novo, veio do mato…”, cantava o Zeca Afonso no seu maravilhoso hino anticolonial) como no Brasil, dando nome ao enorme estado do Mato Grosso e o mais pequeno do Mato Grosso do Sul.

Lugar da Casa Nova de Cerzeda
Lugar da Casa Nova de Cerzeda

A palabra “casa” também formou muita toponímia entre nós, em concreto seis lugares chamados a Casa Nova, nas freguesias de Pereira (em cujo Castro de Casa Nova se encontrou umha estela funerária datada nos séculos III-IV)[5], Vila Maior, Cerzeda, Meirama, Albijói e Cabrui, e umha soa Casa Velha, em Buscás.

Seriam os vizinhos destes lugares chamados Casal os que começaram a apelidar-se “do Casal”, e de aí surgiu o atual apelido, frequentíssimo na Galiza, perdendo com o tempo o “do”. Levava-o, por exemplo, o incombustível Ánxel Casal, irmandinho, editor, membro fundador do Partido Galeguista, alcalde de Santiago… e assassinado polo franquismo.

O Casal de Ordes viveu muita história, como testemunha o seu castro, o Castro do Casal, que se pode visitar desde a vila dando um passeínho de uns poucos minutos e ao qual Euloxio Ruibal, o dramaturgo de Buscás, dedicou um formoso poema.

Durante a II República foi vizinho do Casal de Ordes Juan Ríos García ‘Rada’, concelheiro pola Izquierda Republicana do governo municipal da Frente Popular de 1936 e militante da Sociedade de Agricultores de Ordes[6]. Na sua casa tem trabalhado de jornaleiro Manuel Lois García. Aos 42 anos, os fascistas prendem-no pola sua atividade política progressista e condenam-no à cadeia perpétua, conseguindo sair em liberdade condicional no ano 1941. Quando a finais da década de 1950 e durante a de 1960 os democratas ordenses começam a reunir-se de novo, clandestinamente na casa de Juan Rodríguez Iglesias ‘Carril’, Rada do Casal será um dos que participem[7]. Dizque já em plena Transiçom, quando o Partido Comunista deu o seu primeiro mitim no campo de futebol de Vista Alegre, Rada saira completamente dececionado.

A resistência deveu ter o Casal por lugar seguro, pois quando Pedro do Serrador (Pedro Rodríguez Gómez) solicitou incorporar-se à clandestinidade, Ponte citou-no ali para i-lo recolher[8]. Nom em vao esta era a aldeia em que vivia José Remuiñán Barreiro, quem nascera em Parada. Aos 22 anos também foi julgado polos golpistas, resultando sentenciado a 12 anos e um dia de prisom. Quando recupera a liberdade incorporará-se à resistência do Exército Guerrilheiro da Galiza com Ponte, sendo conhecido na clandestinidade como o ‘Ricardito’. Desde 1944 aparece como homem de confiança de Benigno Andrade, acompanhando-o desde 1947 como dirigente da V Agrupaçom, que atuava pola zona de Ponte Vedra. Quando no 18 de maio de 1948 o seu destacamento sofre umha cilada da Guarda Civil em Loureiro, na freguesia teense de Luou, consegue fugir junto com o Foucelhas. Entom, destruída a V Agrupaçom, volta à IV, no destacamento Arturo Cortizas. Crê-se que morreu a tiros da guarda civil no 31 de outubro de 1949 nas casas de Paços, em Monfero, onde morreram outros guerrilheiros. Mas também há quem fala de um misterioso homem que muitos anos despois apareceu polo Casal…

As táticas repressivas contra Remuiñán foram especialmente desapiadadas por parte do franquismo, que nom hesitava em golpear e fazer refém a família do dissidente como umha forma de chantagem para conseguir a sua “conversom” política: estratégia que, de forma mais branda, prossegue hoje com a chamada “política da dispersom”. Entom oito membros da sua família do Casal foram deportados a Espanha, à província de Burgos. A sua nai, Antonia Barreiro Recouso, morreu no desterro, atrapada por umha nevada no 22 de abril de 1949 nas proximidades de Villahoz[9]. Luís Seoane, em cuja obra há outras personagens ordenses, compujo a partir destes feitos um poema ao jeito dos romances de cegos, “Verdadeiro sucedido num Nadal”, que se pode ler no final deste artigo[10].

Como breve nota onomástica, o primeiro apelido do guerrilheiro Ricardito aparece muitas vezes nos textos como “Ramuñán” ou “Reimuñán”, sendo Remuiñán ou Remuinhám como habitualmente se di na comarca de Ordes. Nom debe ser um apelido de origem toponímica, senom de umha alcunha, talvez alusiva a um caraterístico remoínho no cavelo. A ver se algumha leitora mais informada nos pode dizer mais. Em Parda, onde José Remuiñán tinha as suas raízes, também se apelidavam assim outras duas pessoas de esquerdas, se quadra familiares deles: Jesús Liste Remuiñán, vizinho da Agrela de Baixo (Parada) e militante socialista, concelheiro interino polo PSOE do governo municipal da Frente Popular de Ordes constituído no 7 de março de 1936; e Manuel Remuiñán Figueira, vizinho do Castro e concelheiro pola Izquierda Republicana nesse mesmo governo[11].

Jesús Liste Remuiñán
Jesús Liste Remuiñán

No Casal de Ordes também morou em 1965 o antropólogo danês Gustav Henningsen e a sua família, numha casa alugada polo panadeiro Andrés Blanco (homem de Fleira García), e quem conhecera no Corpinho. O Casal serviu-lhe ao antropólogo de campo de treinamento para o seu trabalho posterior, e ali foi onde a vizinhança lhe foi ensinando a nossa língua. Também realizou ali algumha das suas formosíssimas fotografias. Polas suas próprias palavras:

“A finales de octubre de 1965 me instalé con mi familia en Órdes, un pequeño pueblo entre Santiago de Compostela y La Coruña, donde vivimos casi un año. Allí comencé mis entrevistas, y a medida que iba conociendo a los paisanos y comprendiendo bien el gallego, me vi en mejores condiciones para llevar a cabo mi trabajo de campo en las numerosas aldeas de los alrededores del pueblo, que se encontraban esparcidas por la comarca en lugares aislados, fuera de la red de carreteras, pudiendo sólo llegar a la mayoría de ellas a pie”[12].

Apéndice: O poema de Luis Seoane

VERDADEIRO SUCEDIDO NUN NADAL

Ocurriu en 1950.

É, de verdade, algo que ocurríu en Castela,

na provincia de Burgos,

como iniciaríase nun romance de cegos.

Foi verdade.

Ocurríu polo Nadal

en 1950.

Unha familia de Ordes

ou de Mesía

da montaña,

cecáis entre Ordes e Mesía,

ou máis alá de Mesía,

ou moi a rentes de Ordes,

ou de Ordes, xa dixemos, cecáis,

foi desterrada de Galicia

por non declarare

onde se escondía o seu fillo

botado ó monte, guerrileiro.

Foron levados a Burgos

entre parellas de guardia civil.

A Villahoz

os pais e unha filla solteira.

A Torrepadre un fillo casado.

A Villafruela outro fillo casado.

De Villahoz a Torrepadre

cinco kilómetros.

Seis de Villafruela a Villahoz,

e, moi perto, Royuela,

a cinco kilómetros de Torrepadre

ou algo así,

non sei ben.

Os tres pobos, Villahoz, Villafruela,

Torrepadre,

axudaron no que poideron ós desterrados,

xentes diferentes a éles,

de outras costumes,

de outro idioma,

dunha casta soio coñecida déles,

casteláns,

por un afiador ó que querían

e escoitaban con gozo cando chegaba

a calisquera déses pobos

co seu pregón:

“Cuchillos, navajas, tijeras…”,

como unha cantiga.

E foron garimosos con eses desterrados,

probes labregos

vidos de moi lonxe,

de onde chega o vento galego.

Alí, a Villahoz,

Moi preto de Palencia

na provincia de Burgos,

terra de frío e neve,

de xentes mesturadas de vellas castas,

iberos e mouros,

desterraron a famila galega,

en vísperas do Nadal de 1950.

Pódese comprobar.

Téñense testemuños.

A vella nai saíu soia,

andando,

non tiña cartos nin outro medio de ire

de Villahoz a Torrepadre,

e de Torrepadre a Villafruela,

para felicitar ós fillos o Nadal.

Fíxoo,

e regresaba con lentitude

sempre entre a neve,

pisando a neve,

masticando e sorbendo a neve

con que o vento fostregáballe o rostro,

indo de volta moi amodiño

de Villafruela a Villahoz

ou de Torrepadre a Villahoz

onde a agardaba o seu home

e a filla solteira,

para festexar o Nadal

como poden facelo os desterrados,

cun fillo casado a cinco kilómetros

e outro fillo casado a seis kilómetros

que por orde gubernativa

non poden xuntárense con eles.

Foi no Nadal

-“A noitiña de Nadal

é noite de grande alegría”-.

O can dun pastor de ovellas

descobríu un corpo no chan

embrullado en panos pretos

xa cuberto de neve.

Nos cabelos brancos

brilándolle a neve,

a neve cubríndolle os ollos abertos, azúes,

e morta.

A probe nai desterrada morta.

Morta en Castela

lonxe da súa montaña,

a de Ordes ou Mesía,

moi a rentes de Ordes ou Mesía,

cecáis.

Desenterrárona o can e o pastor,

un pastor como aqueles que,

1950 anos denantes,

tíñanse, homildosos, axionllado

diante de outra nai fuxida.

Tamén o fillo desa nai galega,

guerrilleiro,

levaría en Galicia, con seguranza,

o mesmo destino

que levóu o fillo de aquela nai

de 1950 anos denantes.

Todo foi verdade.

Todo pódese comprobar.

Moitas veces tiñan cantado,

pais, fillos e netos xuntos,

eles mesmos:

“A noitiña de Nadal

é noite de grande alegría…”

Luis Seoane, A maior abondamento, Buenos Aires / Corunha, Ediciones Cuco-Rei, 1972, pp. 175-178.

[1] Antonio López Ferreiro, Fueros municipales de Santiago y de su tierra, Madrid, Ediciones Castilla, 1975 (ed. facs. do original de 1895), p. 43.

[2] Manuel Lucas Álvarez, San Paio de Antealtares, Soandres y Toques: Tres monasterios medievales gallegos, Sada, Ediciós do Castro, 2001, p. 220.

[3] Ibidem, p. 253.

[4] Manuel Lorenzo Baleirón, Toponimia de Dodro e de Laíño. Os nomes na auga, Concello de Dodro, 2008, p. 22.

[5] A A.C Obradoiro da História editou em 1998 a ficha Estela funeraria do Castro de Casanova.

[6] Manuel Pazos Gómez, Achegamento à Segunda República en Ordes. Documentos, Ordes, A.C. Obradoiro da História, 2001, p. 16.

[7] Manuel Pazos Gómez, A República da Berxa. Antonio Gómez Carneiro e o seu tempo (1899-1979), Ordes, A.C. Obradoiro da História, 2014, p. 113.

[8] Manuel Astray Rivas, Síndrome del 36. La IV Agrupación del Ejército Guerrilero de Galicia, Sada, Ediciós do Castro, 1992, pp. 142-143.

[9] Manuel Pazos Gómez, A Guerra Silenciada. Mortes violentas na comarca de Ordes 1936-1952, Ordes, A. C. Obradoiro da História, 2011, pp. 64-65. Também: Manuel Pazos Gómez, “De Ordes a Castela: os desterrados como forma de represión”, Luzes nº 36, outubro de 2016, pp. 50—55.

[10] Luis Seoane, A maior abondamento, Buenos Aires / Corunha, Ediciones Cuco-Rei, 1972, pp. 175-178.

[11] Manuel Pazos Gómez, Achegamento à Segunda República en Ordes. Documentos, Ordes, A.C. Obradoiro da História, 2001, p. 16.

[12] X. R. Fandiño Veiga, “Informe sobre tres anos de investigacións etnolóxicas en España”, em: Gustav Henningsen. Fotografías etnográficas 1965-1968. Galicia máxica. Reportaxe dun mundo desaparecido, Santiago de Compostela, Museo do Pobo Galego, 2015, pp. 11-24, p. 21 [Original: “Rapport fra et studieophold i Spanien”, Nordnytt, 34, 1969, pp.20-31; e versom em castelhano: “Informe sobre tres años de investigaciones etnológicas en España”, Ehtnica. Revista de antropología, 1, pp. 61-68].

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