Pam, cravos e desordens

para Patricia do Zapateiro da Portela

Letreiro Portela

A Portela de Leira é a aldeia vizinha de Loureda, famosa sobretudo polo pam, empadas, roscas e doces da Panadería Fontán, a antiga Casa do Zapateiro, que reparte por muitas paróquias da comarca. O topónimo, bastante frequente na área lingüística galego-portuguesa (os dous núcleos mais grandes com este nome estám no Sul de Portugal), refire-se a umha passagem entre montes ou outeiros e, às vezes, simplemente a umha divisória de augas e vertentes no alto dumhas encostas, segundo explica Sestay[1]. A palavra é um diminutivo do latim portam, que se utilizou nas línguas romances para designar diversos sistemas de peche ou divisória e, metaforicamente, zonas de entrada. Para além deste sentido orográfico, haveria que ver se, polo menos em algum caso, nom se poderia referir às autênticas portelas ou cancelas que no sistema agrário comunal se erguiam no cercado comum depois da “derrota de meses”. Em verdade, a Portela si que está num ponto alto que funciona com divisória, mas também está na cabeça de umha extensa zona de cultivos, hoje mui parcelados, que antigamente se chamou em conjunto o Agro de Loureda.

Aldeia da Portela, em Leira (Ordes)
Aldeia da Portela, em Leira (Ordes)

O Aeroporto Internacional da Portela, em Socavém, foi um dos pontos neurálgicos que os Capitáns de Abril tomárom durante a Revoluçom dos Cravos para derrocarem a ditadura. Esta operaçom em concreto foi dirigida por José Inacio da Costa Martins, posteriormente Ministro do Trabalho e impulsor da campanha “Um dia de trabalho para a Naçom”. Tras a contra-revoluçom de 25 de Novembro, viu-se obrigado a exiliar-se, primeiro em Cuba e depois em Angola, onde colaborou estritamente com o MPLA de Agostinho Neto, até ser umha das vítimas da brutal purga de 27 de Maio de 1977. Também se chamava Portela o rancho que a família Guevara de la Serna tinha na província de Buenos Aires, e na qual o Ché passou muitos momentos da sua vida[2].

Os muitos lugares de nome Portela originárom o apelido homónimo que, sem ser mui frequente em Ordes, já que a aldeia tampouco é tam grande como para ter gerado muitos ‘da Portela’, si que levárom galegos ilustres como o liberal Manuel Portela Valadares (1868-1952), chefe do governo da II República em 1936; a canoista olímpica do Morraço Teresa Portela; ou o arquiteto César Portela, destacado na luita contra a “navalhada” da AP-9. O Tío Marcos d’a Portela foi o cabeçalho do popular periódico de luita anti-caciquil de Valentín Lamas Carvahal, um dos pioneiros da imprensa em galego, e em cujas páginas aparecem várias colaboraçons do ordense Carlos Pol Caamaño, um dos muitos personagens históricos da saga dos Pol, que dam para um excelente romance histórico entre governadores nas colónias das Filipinas, pioneiros do desporto e do excursionismo, livrepensadores, agitadores agraristas e galeguistas republicanos, maçons, vegetarianos, anticlericais… Carlos Pol foi Venerável Mestre da lógica Amor Universal nº 32, de Ordes, durante todo o tempo que existiu: do ano 1889 ao 1896, sendo o seu irmao Julio e a sua irmá Carmen –umha das poucas galegas integradas entom na maçonaria-, membros da lógia Progreso nº 39 da Corunha, entre 1890 e 1895. No campo do jornalismo combativo, para além de escrever em O Tio Marcos d’a Portela, também fundou e dirigiu um outro semanário publicado integramente em galego durante 1888. A Fuliada, em cujas páginas fijo a pessoana declaraçon de “o idioma é a pátria”. Após esta experiência, em 1890 tira na Corunha Brisas y Tormentas, também semanário, cuja leitura e venda foi proibida polo Arcebispo de Santiago, que nom parou até fazer fechar o periódico[3].

Tio Marcos da Portela

Em O Tío Marcos d’a Portela publicou Carlos Pol os seguintes poemas, de temática pró-agrarista, anticleral, crítica com os ricos e com a “justiça”, e mesmo protofeminista:

  • “Másimas”, no parrafeio 214 de O Tío Marcos d’a Portela de 5 de fevereiro de 1888.
  • “¡Probe muller!”, no parrafeio 224 de O Tío Marcos d’a Portela de 15 de abril de 1888.
  • “O verdadeiro amor”, no parrafeio 227 de O Tío Marcos d’a Portela de 6 de maio de 1888.
  • “Un xuicio de faltas”, no parrafeio 229 de O Tío Marcos d’a Portela de 20 de maio de 1888.
  • “Minguiños de Busto”, no parrafeio de 233 de O Tío Marcos d’a Portela de 17 de junho de 1888.

E os relatos:

  • “As cartas”, no parrafeio 226 de O Tío Marcos d’a Portela de 29 de abril de 1888.
  • “A ermida de San Roque”, nos parrafeios 247 de O Tío Marcos d’a Portela de 29 de setembro e 7 de outubro de 1888[4].

Este último conto, que é um diálogo sobre a brevidade da vida que mantém o narrador com o seu cam, situa-se na ermida de San Roque do Monte, de Traço, e arranca com um curioso apontamento toponímico:

“No auntamento de Trazo, partido de Ordes ou Desordes, que nunca poiden atopar a verdadeira etimoloxía de tal pobo dos diaños e polo mesmo non afirmo, eisiste unha ermida titolada de San Roque do Monte, a cual por máis que ocupa a cresta dunha pequena colina, está rodeada de montes altos […]”.

O jogo de palavras com o nome da vila tivo bastante continuaçom na nossa história underground, que começou quando um século depois, a finais da década de 1980, se organizou na vila o festival e maqueta punk “Desordes en Ordes”, com atuaçons de Desvirgheitors e Kruze de Kables entre outros; prosseguiu com o pub Desórdenes do Campo da Feira, famoso por multiplicar aforo no momento exato em que picavam o “Eu quero ser gaiteiro” dos Diplomáticos de Monte Alto; e consolidou-se com o Desordes Creativas. Também o Tío Marcos d’a Portela tivo umha reediçom digital, em terras ordenses, sob o novo cabeçalho zapatista de Subcomandante Marcos d’a Portela.

Gostava de rematar este artigo sem “falar de mortos”, como se queija algumha gente, mas é que o Estado espanhol é o segundo com mais fossas comuns do mundo, só superado pola Campucheia, e se sempre se di que a Galiza acumula a maior densidade toponímica do Estado, também parece que nom há nome de lugar onde nom ressoem as vítimas do genocídio de 1936, sendo um dever ineludível reconhecê-las. A minha avoa, Valentina da Vitória, contou-me por carta: “Tenho ouvido que na pista que vai cara à Chabola, o caminho da Lagórcia –cerca da pista que vai até à Portela, hoje nom o hai-, hai homes enterrados. O Venturica, o Rogelio, Martis de Lesta… matavam os homes. O Rogelio carrejava os mortos nom sei para onde”.

[1] Iván Sestay Martínez, Toponimia do Val do Fragoso. Vol. 2. Lavadores, Vigo, Universidade de Vigo, 2010, p. 146.

[2] Juan Martín Guevara & Armelle Vincent, O meu irmão Che, Lisboa, Objectiva, 2017, p. 45.

[3] Xosé Ramón Barreiro Fernández, “Prensa masónica en Galicia”, em: Alberto J. V. Valín Fernández & Carlos Díaz Martínez, Masonería universal. Una forma de sociabilidad. “Familia galega” (1814-1996), [Catálogo da exposiçom homónima realizada na Corunha no Palacio Municipal de Exposiciones, Kiosko Alfonso, do 1 ao 20 de junho de 1996] Corunha, Fundación Ara Solis, 1996, pp. 157-162.

[4] Modesto Hermida (dir.), Narradores ocasionais do século XIX (Relato breve), Santiago de Compostela, Xunta de Galicia & Centro Ramón Piñeiro, 2003, pp. 317-341. Agradeço a Manolo Pazos o envio deste livro.

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