Os Templários de Leira

para Noelia Gestal

bailia en leira

A Bailia –que no Nomenclátor vem sem artigo, ainda que todo o mundo o usa, dizendo-se também muito a Beilia– é umha aldeia de Leira que, polo seu afastamento da igreja paroquial, sempre tivo muito vida própria dentro da freguesia, contando com escola unitária durante muitos anos e na qual mesmo se fai missa. Até na língua se acha mais próxima em alguns traços das falas bergantinhás que já se dam nas vizinhas paróquias de Cerzeda do que das caraterísticas dialetais do resto de Leira; de miúdos fazia-nos muita graça que os da Bailia nom diziam “nom ho” senom “nom ha”, ou os seus “comiu, colhiu” face aos nossos “comeu, colheu”.

O topónimo fai referência ao étimo bailia, derivado de bailo. Esta família de palavras nasce do latim bajulos ‘moço de corda’, e que por comparaçom com o homem que levava umha cárrega ou exercia um cargo foi dando nome nas línguas romances a várias funçons da administraçom pública. Assim, o catalám batlle significa ‘alcalde’ e o aragonês baile ‘juiz’, palavras vindas por sua vez do occitano baile[1]. Na França, bailliage era o partido ou jurisdiçom na qual o bailli impartia justiça em nome do rei, sorte de princípio dumha justiça “transenhorial”, como a definiu Pierre Bourdieu.

Entom, sendo umha bailia o território ou jurisdiçom administrada por um balio (como aparece escrito em documentos de 1274), a palabra bailia aplicou-se na Galiza durante a Idade Média principalmente a territórios dependentes de ordens religioso-militares, caso das Ordes[2] de Santiago, Sam Joám de Malta ou do Temple, que eram as que encomendavam a um bailo ou bailio a administraçom no seu nome das suas terras; isto é, antes do mais, que cobra-se aos labregos baixo a sua bailia as quantiosas rendas agrícolas que produziam.

Mapa Bailia

Qual seria a Ordem à que pertencia a Bailia de Leira? Só a documentaçom pode resolver a dúvida com certeza, mas Carlos Pereira Martínez, historiador da atividade dos templários na Galiza, pom em relaçom a Bailia de Leira e a aldeia homónima da paróquia carralesa de Canhás com a Ordem do Temple de Cambre[3]. Pola nossa parte, apenas podemos comentar que Leira, entom umha vila, pertenceu ao primitivo mosteiro de Cambre, fundado por dom Aloito e as suas irmás, dona Vistiverga e dona Urraca, até que no ano 932 os seus nenos Gutier e Aloito a doam ao mosteiro de Sam Paio de Antealtares, junto com outras vilas cerzedenses como Germar, Ribasoutas ou Xalo; “villam quam dicunt Leyra”; villa Germar iuxta Ripas altas cum suo busto et com suis villaribus; villa de Gallo cum suo busto”[4].

Esta Ordem do Temple, mui popularizada hoje pola literatura e polos programas de televisiom de temática história e mesmo de mistério, foi fundada em Jerusalém e chegou à Galiza de mao de Fernando Peres de Trava, aio do rei Fernando II que se teria relacionado com os “cavaleiros de Jerusalém” em Portugal, quando mantivo um afamado romance com a raínha dona Tareixa, grande protetora dos templários que realizou generosas doaçons ao Temple, incluídas todas as suas terras entre Coímbra e Leiria.

Os templarios mantinham umha organizaçom piramidal encabeçada polas chamadas “províncias” (os galegos dependêrom até o século XIII da de Portugal), que à sua vez incluiam reinos formados por bailias, chegando finalmente às encomendas agrícolas que dependiam delas. Este seria o hipotético caso da aldeia de Leira, pequena encomenda agrícola dependente da bailia do Temple. Estes militares-religiosos tinham especial interesse no Caminho Inglês ou Caminho do Faro, polo qual peregrinavam a Compostela alguns cruzados do Norte da Europa caminho da Palestina, cujos navios aportavam em Faro antes de irem à guerra, contribuindo ao esplendor comercial do mesmo.

A Ordem do Temple caiu em desgraça quando Filipe o Formoso, rei da França iniciou umha brutal campanha de denigraçom dos templários, acussando-os de sodomitas e de práticas anticristás, como cuspirem na cruz. A razom desta perseguiçom –como no caso da expulsom dos judeus a maos dos Reis Católicos- nom foi outra que a forte dívida que o marca tinha com a Ordem, até o ponto dde o seu tesouro real estar penhorado na casa do Temple de Paris. O processo continuou até atingir um grau de violência estrema, sendo torturados e queimados muitos templários. Dessa perseguiçom nasceu a lenda dos templários que hoje se reelabora em centros de livros de literatura histórica, esotérica e de ciência-ficçom.

Com a investigaçom dos templários galegos Carlos Pereira Martínez achou documentaçom onde fica claro que o topónimo Faro se referia a todo um comisso, um condado. Manuel Murguía defendeu no seu dia que a denominaçom comarcal de Marinha dos Freires nom se referia aos bieitos –a hipótese do Padre Sarmiento-, senom aos templários, tal era a influência que chegaram a ter. O interessante disto, para a toponímia ordense, é que perto da Bailia de Leira se encontra o Alto do Faro (442m), de Mercurim. Havida conta de que “unha das grandes preocupacións dos templarios (aínda que non só deles) era redondear as súas posesións, ben nun lugar determinado, ben na súa zona de influencia”[5], cabe especular se o nome deste monte teria algumha relaçom com o comisso dos templários de Faro, ainda que é um nome habitual entre os montes galegos: Faro de Aviom, Faro de Domaio, e subretudo o Faro de Chantada, visível mesmo desde a nossa comarca, pois como contava Otero Pedrayo no seu Guía de Galicia, “desde Ordes, la carretera sigue por país alto de inmenso horizonte (a lo lejos el Pico Sacro, el Faro de Chantada, la Tierra de Montes) al Mesón do Vento, célebre en los tiempos de arriería y viajes en diligencia (436m)[6]. Ainda, ha´um topónimo de Faro em diminutivo, Farelo, na província de Lugo. Moralejo Lasso deriva-o do greco-latino pharus ‘faro’, supom-se que em sentido metafórico, e também aponta que Haro, em Logronho, antes foi Faro. Quanto à cidade homónima do Sul de Portugal, a origem seria outra: o antropónimo árabe Harun[7]. Por sua parte Nicandro Ares, estudando o Faro de Chantada –anteriormente chamado Monte Navego-, diz que nom é um topónimo claro e menciona três hipoteses que apenas desenvolve: umha origem apartir do faro grego, umha possível origem germánica, a possibilidade destes faros fazerem referência a montes usados para a transmissom de mensagens[8].

A minha avoa Valentina da Vitória emocionara-se muito quando herdara um pequeño terreno no Faro, lugar que condensa os momentos mais felizes da sua infáncia. À Fonte do Faro ia de nena à água e a lavar a roupa, que punha a clarear no Prado do Faro; na Leira do Faro botava o linho e, num ano que tiveram o Ramo do Sacramento em Perra, todos os festeiros foram em marcha com os gaiteiros de Soandres até à Camposa do Faro, onde bailaram todos, das crianças ao avô da avoa, e quem sabe se nom andaria entre eles o Johán de Requeixo a cantar o seu:

“Fui eu, madre, en romaria

a Faro con meu amigo

e venho d’el namorada

por quanto falou comigo,

ca mi jurou que morria

por mi; tal ben mi queria!”

Escola da Bailia

[1] Fernando Cabeza Quiles, Toponimia de Galicia, Vigo, Galaxia, 2008, p. 76.

[2] Naturalmente, houve quem especulou o topónimo Ordes vir precisamente dumha destas Ordens, sendo umha das possíveis hipóteses.

[3] Carlos Pereira Martínez, Os templarios. Artigos e ensaios. Noia, Toxosoutos, 2000, p. 62.

[4] Manuel Lucas Álvarez, San Paio de Antealtares, Soandres y Toques: Tres monasterios medievales gallegos, Sada, Ediciós do Castro, 2001, p. 172. Documento de 16 de agosto de 932.

[5] Ibidem, pp. 61-62.

[6] Ramón Otero Pedrayo, Guía de Galicia, Vigo, Xerais, 1991, p. 458.

[7] Abelardo Moralejo Lasso, Toponimia gallega y leonesa, Santiago de Compostela, Pico Sacro, 1977, pp. 287 e 324 n. 22.

[8] Nicando Ares Vázquez, “Miscelánea onomástica das terras de Asma e afíns”, Alicerces. Revista de estudos sobre o Miño Medio, tomo I, 2006, pp. 131-136.

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