Apelidos LINHARES e LINHEIRA(s): Os tecidos da comunidade

As abundantes terras para o cultivo do linho (Linum usitatissimum) deixárom umha grande impronta toponímica na comarca de Ordes e, por conseguinte, nos seus apelidos, sendo Linhares o oitavo mais frequente do concelho de Cerzeda. Devem ser essas Linhares descendentes das vizinhas da aldeia de Gesteda chamada igual, e que tem a sua irmá toponímica na cidade brasileira de Linhares, situada junto à desembocadura do rio Doce, no estado do Espírito Santo. Em Numide está o Linharinho e em Bascói Linharcovo, achando-se na microtoponímia um outro Linhares em Campo, os Linhares em Abelhá, o Linhar em Vila Maior e o mais formoso: a Eira da Linheira, em Barbeiros. Som todos eles derivados do latim lenum ‘linho’, acrescentando-se no caso de linharcovo o adjetivo ‘covo’, em referência a um antigo cultivo de linho emprazado num lugar fundeiro.

Desta planta, cuja flor de cinco pétalos é especialmente formosa, veu-se obtendo há milénios a fibra vegetal mais tradicional –junto com o cánamo (Cannabis sativa)- do mundo europeu. A sua presença nos castros crê-se que foi limitada, embora prévia aos romanos[1]. No Petom do Castro (Corunha) acharam-se evidências da obtençom de ôleo de linhaça, cujo valor medicional pode corroborar a componhedora de Santaia. Estrabom (III, 3,6) escreveu que a maioria dos guerreiros lusitanos usavam couraças de linho, ficando reservadas as de malha a umha pequena elite. Plínio o Velho, por sua parte, indicava que (Nat. Hist., XIX, 10): “desde há pouco tempo, da mesma Hispánia chega à Itália o linho zoélico, mui útil para redes. Esta cidade [Zoela] é da Gallaecia e está próxima ao Oceano. Mesmo Cumes, no Campánia, lhe debe a fama da sua pesca e caça”.

Já na Idade Moderna e Contemporâne o cultivo de linhofoi importantíssimo, flutuando o seu valor conforme os avatares políticos da velha Europa: a Grande Guerra europeia, a competência das repúblicas bálticas, a após-guerra espanhola, etc. Em qualquer caso, a tradicional divisom sexual do trabalho, que asignava às mulheres o processamento do linho, tivo umhas imprevistas consequências de género. González de Ulloa, na sua Descripción de los estados de la casa de Monterrey en Galicia, apontava preocupado que: “O comércio do outro sexo é comummente com linho, que beneficiam e vendem em rama ou em tea. É laborioso, sem dúvida, mas útil, se a isto nom se engadisse muito de delinquente”[2]. O escandalizado religioso referia-se, com certeza, aos espaços de sociabilidade feminina que se criavam para o trabalho do linho: as tascas e fias, perseguidas polo clero até há só umhas poucas décadas, e insistentemente demonizadas. Nelas as mulheres trabalhavam juntas, num espaço de ajuda mútua que, aliás, lhes dava autonomia económica e, para colmo, onde também faziam festas de forte tom erótico-festivo.

Durante a II Republica, Juan Liñares García foi o vice-secretário da Sociedade Agrária “Adiante” das Encrovas; José González Liñares, o ‘Ferreiro da Gesteda’, oculto vários anos em Compostela após o golpe de Estado, fora o principal dirigente frontepopulista de Cerzeda; Antonio Liñares foi vogal do Sindicato de Ofícios e Profissons Várias de Ordes, e José Iglesias Liñares, vizinho da Rua, foi o presidente da Sociedade Agrária de Ordes e concelheiro da Esquerda Republicana. Também era da Rua de Buscás (seriam familiares?) o bombista Cesáreo Liñares, ‘Cesáreo da Rua’. Quanto à política de notáveis, a saga dos Liñares começou em Traço com Gumersindo Liñares, pai de Juan Liñares Iglesias, alcalde de Ordes durante uns meses com a Ditadura de Berenguer, e que se afiliou ao Partido Radical da mao de Gerardo Abad Conde. Durante o período republicano o seu Café Bar Liñares foi um dos centros de reuniom do republicanismo ordense. Em pleno genocídio o direitista Domingo A. Moar Veiras, mui enfrontado a esta família, denunciou várias vezes à guarda civil as atividades “rojas” dos seus membros, escrevendo, por exemplo, que: “en el escaparate de su Bar lucía la hoz y el martillo, así como la bandera roja, saludándose puño en alto”, acussaçons que entom podiam costar a vida. O mesmo denunciante também carregava contra os filhos, acusando o advogado Juan Liñares Castro de ser o apresentador de Suárez Picallo nos seus mitins em Ordes, e a Luis Liñares Castro e a outros jovens da vila como Mundito (o da Rua Mundito) de altercados na rua contra os fascistas[3].

Os apelidos Linheira e Linheiras também tiverom representantes ordenses, no antifranquismo de além-mar e no universo cunqueiriano. Antonio Liñeira era militante da sociedade de migrantes na Argentina Unión del Partido Judicial de Órdenes, integrada na importante Federación de Sociedades Gallegas. Quando em 1943 se permite que alguns espanhóis (na realidade, a maioria eram galegos) militantes no Partido Comunista Argentino constituam umha seçom do pCE, Liñeira é um dos seus primeiros militantes. Em 1948, é um dos três expulsos, por ordem da polícia federal, da Federaçom de Sociedades Galegas “por actividades políticas contrarias al país”. Eram os anos de amor entre Franco e Perón, e mesmo obrigavam à Federaçom a retirar da porta do seu local o escudo com a fouce. De nada serviu argumentar que nom era um símbolo comunista senom celta. Em qualquer caso, Liñeira dessobedeceu abertamente a ordem policial e continuou a assistir às suas atividades galegas e anti-franquistas à sede da rua Chacabuco, no Buenos Aires, capital da Galiza exiliada[4].

José Liñeiras é o protagonista dum dos contos mais entranháveis de Álvaro Cunqueiro. Liñeiras, quem nascera com seis dedos, “iba mucho a ferias y mercados, desde Arzúa a Órdenes e desde Vilar de Frades al Mesón do Vento, y aun se acercaba a Ponte Sigüeiro y algún jueves a Santiago de Compostela. Y buscaba entablar conversación con otros feriantes intentando averiguar si conocían a alguien que tuviese seis dedos en una mano o en un pie”. Acougou Liñeiras cuando: “Una tía suya que vivía en La Habana vino a pasar una temporada a Galicia, y le contó a Pepiño que ella le había oído a su abuela que su padre y su abuelo, -es decir, el bisabuelo y el trisabuelo de Pepiño-, habían tenido seis dedos en la mano derecha. Lo de los seis dedos, pues, era herencia familiar, y Pepiño, que se acababa de casar con una guapa moza de Xanceda y celebrado la boda por todo lo alto en Órdenes, -la primera boda de por allí en la que hubo helado de postre, por consejo de la tía habanera-, ya estaba pensando en hijos con seis dedos, y en llegar a ver un nieto con la misma novedad”[5].

[1] Ramil-Rego e Fernández Rodríguez, em Marco A. García Quintela, Mitología y mitos de la Hispania prerromana III, Madrid, Akal, 1999, p. 310.

[2] P. González de Ulloa, Descripción de los estados de la casa de Monterrey en Galicia, ediçom de J. R. Fernández Oxea, Madrid, CSIC, 1950, p, 28.

[3] Gómez Pazos, 2001.

[4] Hernán M. Díaz, Historia de la Federación de Sociedades Gallegas, Buenos Aires, Fundación Sotelo Blanco – Biblos, 2007, pp. 114, 141-142, 161 e 233.

[5] Álvaro Cunqueiro, Obras literarias en castellano II, Madrid, Fundación José Antonio de Castro, 2006, p. 922.

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Um comentário em “Apelidos LINHARES e LINHEIRA(s): Os tecidos da comunidade

  1. Chan de Liñares na Alta de Soandres.
    Debandoiras, sarillos, rocas, fusos, tascóns… aprechos do liño que aínda quedan na nosa casa.
    Nas fiadas aproveitabase pra facere bailes de pandeireta, as veces tamén ían alghun gaiteiro. E que non faltara a caña.
    Hai alghún estudo sobre o liño na Ghaliza, no que se fala da exportación das teas.

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