A República Socialista de Vila Maior

Mapa de Vila Maior
Mapa de Vila Maior

O topónimo da freguesia de Vila Maior explica-se por si só e, como se poderia aguardar, é mui comum em toda a lusofonia, da comarca de Ordes ao distrito de Viseu. Restaria apenas examinar a documentaçom medieval e comprovar se, em efeito, o tamanho real da freguesia fazia justiça ao topónimo. Num documento algo tardio para esta comprovaçom, as Memorias del Arzobispado de Santiago (1603-1620) de Jerónimo del Hoyo, a paróquia de S. Tiago de Villamayor, com 50 fregueses (e “ciertas bacas yeguas emparceria” da fábrica da igreja) era a 14ª mais populosa das 75 que atualmente conformam a comarca de Ordes[1].

 

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Habitada em tempos antigos como testemunha o Castro de Vila Maior, as notícias desta freguesia labrega dispersam-se polos séculos em notas marginais, como a do roubo sofrido polo vizinho Ángel Sánchez no ano 1834, quando uns selvagens bandoleiros “le quemaron y abrasaron ambos pies, con paxas encendidas y el rescoldo del hogar”[2]. Na realidade as classes populares de Vila Maior só irrompem na história quando se erigem em sujeito político. Conforme escreveu Manuel García Gerpe desde o exílio:

“prescindiendo de otros brotes societários de minúscula importancia, preciso es remontarse al advenimiento de la República en 1931 para presenciar los orígenes concretos y prácticos de un pronto renacer. El Maestro Juan Bascoy echa los cimientos del Partido Socialista en la parroquia de Villamayor”[3].

A paróquia, numha zona maioritariamente de caseiros, auto-organizouse na Sociedad Agraria de Villamayor, Olas y parroquias limítrofes, presidida por Manuel Sanjurjo Manteiga[4], enquanto a forja do ferreiro Manuel Sanjurjo Varela serve de improvisado ponto de reuniom e debate coletivo. As profissons dos militantes mais destacados ajusta-se à perfeiçom à sociologia que fazia Max Weber dos ofícios facilitadores do ativismo político de esquerdas, por acarretarem a possibilidade de conhecer e falar com muita gente: ferreiros, xastres como Manuel Moar Cao, mestres, et cétera.

Aldeia da Ameixeira, en Vila Maior, Ordes
Aldeia da Ameixeira, en Vila Maior, Ordes

Também deveu ser um quadro importante Pedro Gómez Gaudeoso, vizinho da Ameixeira (fitotopónimo que pode referir-se à fruteira domêstica, Prunus domestica L., ou à brava, Prunus spinosa L; a palabra ameixa vem do latim *damascenetum/*damasceneta, derivada de damascena, “ameixa de Damasco”)[5] que foi concelheiro do Partido Socialista no governo municipal da Fronte Popular de Ordes, e que deveu ser o responsável de que se conseguisse aprovar a construçom dumha escola mista –para nenos e nenas- na paróquia. O manifesto frontepopulista “A los trabajadores y electores en general del Ayuntamiento de Órdenes”, distribuido num mitim em 1936, indica que no concelho havia sociedades agrárias de orientaçom socialista em Ardemil e Vila Maior; informaçom que invita a pensar que Francisco Gómez Gandeoso, presidente entom da Sociedad Agrícola “La Armonía Campesina” de Ardemil e da Sociedad La Defensa del Agro de Ardemil, do Mesom do Vento, devia ser irmao de Pedro da Ameixeira.

É difícil imaginar hoje o impacto social daqueles cinco anos, só cinco, de auto-organizaçom popular, politizaçom e associativismo. A fame de cultura e as ganas de justiça social eram tremendas. Eis por exemplo o Baixo de Adrám[6], que toca nesses anos na Banda de Ordes, ou a viva descriçom que fai García Gerpe dos festejos do 14 de abril de 1936 na vila:

“Fue la mayor demostración cívica que se recordaba. Miles de personas recorrieron las calles de Órdenes. De Villamayor había descendido la parroquia casi en su totalidad portadora de los estandartes y carteles indicadores de las peticiones que elevaban a las autoridades. […] Al frente de la manifestación iban las banderas republicana, gallega, socialista y comunista”[7].

Desafortunadamente nessa mesma noite falecia, por um curtocircuíto elétrico, a sogra do advogado direitista Domingo Antonio Moar Veiras, circunstância que este aproveitou de maneira oportunista para criminalizar a manifestaçom, pois polo visto escacharam uns vidros. O jornal monárquico da Corunha, El Ideal Gallego, foi o altavoz da campanha de intoxicaçom (“Los bárbaros de Izquierda matan a la madre del prestigioso Jefe de las Derechas, el abogado Domingo A. Moar”, intitularam) que desmontou o casarista García Gerpe, embora insinuando, de maneira mui pouco elegante, que foram os de Vila Maior os responsáveis da rutura de vidros. A anedota, em qualquer caso, mostra bem como a burguesia asustada –pola perda de privilégios- acaba em fascismo. Após o golpe de Estado de julho Moar Veiras encheu-se de denunciar rojos (e mesmo direitistas com os que tinha diferenças pessoais) em plena orgia de passeios, num genocídio perfeitamente planeado e que se cevou espcialmente nas zonas onde as classes populares atingiram um maior grau de consciência. Em Vila Maior a barbárie torturou até à morte ao ferreiro Manuel Sanjurjo Varela e assassinou a Manuel Moar Cao. O mestre Juan Bascoy, se é o registado em Nomes e Voces como vizinho de Mera de Riba (ortigueira) salvou a vida fugindo ao monte e estivo suspendido de emprego e soldo até 1958.

Os genocídios nunca procuram só o extermínio físico do inimigo, senom também o extermínio da sua memória e as possibilidades de emancipaçom que eles encarnaram. Por isso, nunca esquecerei o orgulho e a emoçom com a que o sobrinho do ferreiro de Vila Maior me contou como fora descubrindo que o seu tio nom morreu, senom que o mataram, e que o mataram polos seus ideais de igualdade e liberdade. Umha fenda no muro do silêncio. Também está por ver até que ponto, no nível paroquial, as comunidades com um maior associativismo (nos grupos de música e baila tradicional, ou nos clubes desportivos) agora foram as mais politizadas antes da Ditadura. Da República Socialista de Vila Maior talvez nom fique muita memória, mas talvez esta seja umha das raízes dumha paróquia que se mantém mui unida, com as festas ou o futebol e, aliás, aí está Andrés das Corredoiras mantendo a tradiçom musical com o seu clarinete, essa arma carregada de futuro[8].

Manuel Viqueira (gaita) e Andrés das Corredoiras (clarinete)
Manuel Viqueira (gaita) e Andrés das Corredoiras (clarinete)

[1] Jerónimo del Hoyo, Memorias del Arzobispado de Santiago, repr. facsimilar, Santiago de Compostela, Consorcio de Santiago, USC, 2016 [1603-1620], 361v.

[2] Beatriz López Morán, El bandolerismo gallego en la primera mitad del siglo XIX, Sada, Ediciós do Castro, 1995, p. 100 n, 226. Os processos judiciais de entom citam a Taberna de Soutelo, que deve ser do Soutelo de Olas, como da freguesia de Vila Maior entom, e ponto de reuniom da gabela de Messia (p. 77).

[3] Manuel García Gerpe, “Como se forja pueblo”, Órdenes. Revista Memoria Sociedad Unión del Partido Judicial de Órdenes, Buenos Aires, 1943, pp. 36-48; p. 22.

[4] Pazos Gómez, 2014, p. 47.

[5] Moralejo Lasso, 1977, p. 343.

[6] Pazos Gómez, 1998.

[7] García Gerpe, op. cit., p. 29.

[8] Viqueira Noya, 2017, p. 52 (com foto).

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