Já nom arde mil!

Casamento en Xenarde, Ardemil. Foto tomada por Gustav Henningsen nos anos 60 do século pasado
Casamento en Xenarde, Ardemil. Foto tomada por Gustav Henningsen nos anos 60 do século pasado

Através das maravilhosas fotografias de Gustav Henningsen Janarde já saiu várias vezes no Aldeias de Ordes, polo que já vai sendo hora de conhecer o significado do nome desta aldeia de Ardemil. Antes de mais, convém sinalar que o Nomenclátor de Galicia a tem registada como “Xenarde”, com e, se bem toda a vizinhança a pronuncia com a, exatamente igual que na localidade irmá do distrito luso de Aveiro: Janarde.

Mapa de Xenarde, em Ardemil, Ordes
Mapa de Xenarde, em Ardemil, Ordes
Mapa de Janarde, em Aveiro (Portugal)
Mapa de Janarde, em Aveiro (Portugal)
Igreja de San Barnabé de Janarde, em Aveiro
Igreja de San Barnabé de Janarde, em Aveiro

A etimologia popular, recolhida por Mini e Mero, fala de um incéndio pretérito de dimensons colossais. “Ardem mil montes, ardem mil!”, berravam os vizinhos desesperados, até que num outeirinho –o Cotom de Janarde (451m) começou a amainar o lume, e umha vizinha deu a boa nova: “Já nom arde, já n’arde!”[1]. Na realidade, todo aponta para umha vila medieval propriedade de um homem chamado Janardos, ou seja, umha *(villa) Janardi. Este antropónimo tem presença documental na Galiza do século IX, e nele alvisca-se o mesmo elemento gôtico hard `duro, forte’ que aparece na composiçom do topónimo Ardemil. Talvez Janardus se componha em primeiro lugar pola palabra *gais– ‘lança de arremassar’, que Piel acha em Genserico, nome do rei dos vândalos[2]. Nesse caso Janardos viria a significar algo assim como ‘Lança Forte’. Ainda, indica Ferrín que “pode que, nun principio, se tratase dun antropónimo introducido en Galicia nos intres de máximo prestixio do mundo franco”[3], fenómeno já visto a propósito de Pepim.

Por último, na documentaçom medieval da comarca aparece um topónimo semelhante ao de Janarde embora nom igual: um “locum Senandi” doado em 1032 polo bispo Nuno ao mosteiro de Soandres, que Lucas Álvarez situa em Cerzeda mas do que já nom fica rasto toponímico[4]. Sim há um Senande na Costa da Morte. O desaparecido Senande, propriedade dum tal Senandus, aponta a um antropónimo germânico que, como Fernando, deve conter o elemento *nanth ‘audácia’. Ou, quiçá em algum lugar da paróquia de Cerzeda fique um prado ou umha chousa chamada Senande, eco da desaparecida vila do século XI.

Tasca de Xenarde, en Ardemil, en febreiro de 1966 e que aparece no libro 'Gustav Henningsen. Gravacións musicais en Galiza 1964-1968)' de Xavier Groba e Sergio de la Ossa editado no 2017 por A Central Folque
Tasca de Xenarde, en Ardemil, en febreiro de 1966 e que aparece no libro ‘Gustav Henningsen. Gravacións musicais en Galiza 1964-1968)’ de Xavier Groba e Sergio de la Ossa editado no 2017 por A Central Folque

[1] X. L. Rivas Cruz ‘Mini’ e Baldomero Iglesias Dobarro ‘Mero’, Somos lenda viva, Lugo, Citania de Publicacións, 1996, p. 105.

[2] Joseph M. Piel, Estudos de lingüística histórica galego-portuguesa, Lisboa, Imprenta Nacional-Casa da Moeda, 1989, p. 140.

[3] X. L. Méndez Ferrín, Consultorio dos Nomes e dos Apelidos Galegos, Vigo, Xerais, 2007, p. 275.

[4] Manuel Lucas Álvarez, San Paio de Antealtares, Soandres y Toques: Tres monasterios medievales gallegos, Sada, Ediciós do Castro, 2001, p. 220.

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