Entre a pedra e a pera

Do topónimo Pereira, que dá nome à freguesia ordense de Santaia de Pereira, costuma-se fazer a seguinte advertência: pode tratar-se do que parece, um fitotopónimo alusivo à árvore das rosáceas que dá o fruto doce chamado pera, do latim pira e derivados pirario e piraria; mas também poderia referir-se noutros casos a um terreno pedregoso, a partir do latim petra e derivados petrariu e petraria. As aldeias de Pereiras em Restande, as Pereiras em Olas e as Pereirinhas em Lesta, estám ubicadas em terras abundantes em pedra? Por outra parte, o Pereiro de Xavestre e o Pereiro Velho de Tordoia, microtopónimos os dous, de serem fitotopónimos nom indicariam Pyrus communis senom umha outra espécia botánica, variedade da maceira ou da pereira que dá os peros, frutos selvagens dos que Eli Ríos, a escritora de Lesta, fixo um símbolo da tenrura em Luns:

“A señora Lola ten xeito cos rapaces. Cada un vén polo seu chícharo, laranxa ou mazá. Todos lle saben o nome aínda que non despache chuches. Nin doces. Nin larpeiradas. Aló polo corenta de maio a señora Lola carrexa todos os seus anos e netos ás costas. Van á casa da aldea apañar peros que esconde baixo o mostrador. As señoras queren que llelos venda e ella sempre di que todo son falares. Que ella non se vai poñer a gabear árbores á súa idade. Que onde se viu cousa ao paso. E entón chegan os nenos da escola. Os que lle saben o nome e mais os que non. Saca a bolsiña de algodón e cadros vermellos. Os rapaces collen presas e presas de peros. Sentan nas escaleiras da praza a comelos. E a señora Lola sorrí.”

Da vizinhança dos muitos lugares chamados Pereira na Galiza e Portugal nasceu o apelido homónimo, que num princípio mantinha explícito o vínculo territorial com a preposiçom “de” que posteriormente foi desaparencendo (por exemplo em Gomes Peres de Pereira, senhor de Osseiro, Erboedo e Suevos no século XV). Nom é, porém, um apelido mui representantivo da comarca de Ordes, apesar de ser o 3º de Portugal e o 5º do Brasil, segundo umha comparaçom para o ano 2005 do professor Ivo Castro. Com semelhante impronta nom é de estranhar a extraordinária difussom do apelido polo mundo: do dianteiro do Manchester United, Andreas Pereira, ao que fora presidente da independizada república do Uruguai, Gabriel Antonio Pereira, de origens galegas; da atleta Solange Pereira a Guillermo Pereira, fundador da cidade colombiana de Pereira. Ainda, outras cidades levam o nome de fundadores apelidados Pereira: Miguel Pereira, no Estado do Rio de Janeiro, ou Simão Pereira, no de Belo Horizonte.

Muito mais pequena que essas cidades é a nossa Pereira, o que nom a priva de ter umha longa história, como testemunha a estela funeraria do Castro de Casa Nova, datada nos séculos III-IV, ou a medieval (e mui maltratada) Ponte Pereira, atravessada polo Caminho Inglês e resenhada polo Padre Sarmiento.

Na Idade Média apropriava-se da metade das mais-valias do campesinhado pereirense o mosteior de Sam Paio de Antealtares, que também possuia na fregresia o lugar de Martim de Cima e o casal de Satifoga, atualmente desaparecidos da toponímia local. Este último nome de lugar, mui interessante, vem do latim centum foca “cem fogos” ou “cem lares”, sorte de topónimo propagandístico que se dava a umha aldeia orgulhosa de ser mui grande. A expressom debe estar mais viva do que parece, pois a antropóloga Nieves Herrero lembra como a panadeira de Meirama, nada nas Encrovas, lhe dizia fachendosa: “No ano cinquenta havia em Meirama cento oito fogos! Cento oito fogos viventes! E eu entrei em todos… até à lareira!”. Que ironias da história que hoje nom fique rasto dessa aldeia que pressumia de grandeza, embora para esplendores antigos o da aldeia pereirense de Folgoso, que durante séculos deu nome a umha extensa jurisdiçom. A começos do século XVII, quando o cardeal Jerónimo del Hoyo redigiu as Memorias del Arzobispado de Santiago, S. aya .I. eulalia de pereira anº de Sta Cruz contava com 35 fregueses (por volta de uns 140 habitantes) e cifravam o seu valor económico em 100 unidades,

Já para a Idade Contemporánea, Carré Aldao dá a seguinte informaçom:

“Santaya (Santa Eulalia) de Pereira, filial de Montaos.– A la izquierda de la carretera de Coruña a Santiago, sobre las márgenes de los arroyos que van al río Lengüelle, se extiende el terreno de esta feligresía, en general montuoso, pero con llanos de mediana calidad, disfrutando de clima templado y sano y contando con abundantes fuentes de buenas aguas. Dista 3 kilómetros al S. de la cabeza del ayuntamiento y partido, una misma, Ordes, y por ella se dirige al correo, estando unida a ella por la carretera citada, en la que hay sobre el río el puente de Guindibóo.

Las aldeas que conforman la feligresía son: Folgoso, Guindibóo de Enriba (la mayor, con 74 habitantes), Lamela, Ludiño de Enriba, Mendo y Rua, con grupos mínimos, sumando 385 habitantes de hecho y 428 de derecho, domiciliados en 54 edificios, 31 de plantar única y 23 de dos cuerpos, de ellos dos deshabitados por el uso a que se destinan, y hay 23 albergues.

Recoléctanse en el término centeno, maíz, trigo y otros frutos menores. El ganado que en él pastorea es el vacuno, caballar y lanar. Encuéntrase caza y pesca.

Entre las aldeas figura la llamada Folgoso, que dió nombre a una extensa jurisdicción del señoría del Conde de Altamira y que comprendía veinte feligresías, que forman hoy parte de los ayuntamientos limítrofes entre sí de Ordes, Oroso y Frades.”

Com a II República os ventos de liberdade também agitaram a cevada de Pereira. Entom a auto-organizaçom popular cristalizou na Sociedad La Redención del Campesino de Pereira, domiciliada na Igreja e com Manuel Gende Castro de secretário; Antonio Veiras Vázquez de tesoureiro e Ramón Barreiro Nouche junto com Antonio Veiras Sánchez de vogais. Com a vitória da Fronte Popular em março de 1936 o presidente da sociedade, o vizinho de Ludinho José Raña Fernández, entrou no governo municipal de Ordes como concelheiro da Esquerda Republicana. Em julho as forças da reaçom atentam contra todas estas expressons de poder popular, iniciando o genocídio. E mesmo assim Pereira nom se rendeu. Na madrugada do 14 de abril de 1948, duodézimo aniversário da proclamaçom da República, a resistência saboteia em Guindibom de Riba a linha telefónica que matinha comunicadas as autoridades do regime de Ordes e Compostela. Um pequeno fogo de artifício na longa noite de pedra, que servia para lembrar que havia quem continuava em pé.

Também a música popular ajudou muito nesses anos a manter ergueito o espírito. O pereirense Eduardo Veiras Boquete (1928-2015), do lugar de Cerdedo, foi um incansável gaiteiro, acordeonista e clarinetista. Iniciou-se com um terceto, com ele na gaita, Ramón Rey na caixa e Rufino de Boquete no bombo. Na década de 1960 botou a gaita ao lombo e foi ganhar o pam à Alemanha e Holanda. Neste último país gravaram umha escolma das suas peças, atualmente digitalizadas. Do 1967 é umha fotografia sua no Centro Galego de Amsterdam, tocando com um baterista de jeitos jazzísticos. Seguro que Manuel Veiras Varela, leitor do Aldeias de Ordes que nos descobreu o maravilhoso microtopónimo do Inferninho de Cerdedo (rodeado das fincas da Caneira, a Chousa e os Giaos), nos pode contar muito mais sobre ele.

Também nos ensinárom microtopónimos de Pereira José Manuel Jorge Cajaraville, que sabe da Fonte da Cóbrega (com toda a pinta de estar associada a umha lenda de mouros), e Manolito de Prado, que nos situou Cabeça de Lobo.

E como di esse clássico do cancioneiro erótico galego:

umha pera, duas peras,

já nom dá mais a pereira…

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